A filha de dez anos de Divanete Dias Cebalio, 31, busca imitar a realidade: ao desenhar a mãe, não se esquece da colher de pedreiro. Ferramentas, como a desenhada pela filha da servente Divanete, tornam-se, cada vez mais, instrumentos de trabalho de mulheres sul-mato-grossenses, que transformam em vaga lembrança a ideia de que a construção civil é um reduto masculino. De dezembro de 2006 a mesmo mês de 2010, o número de mulheres na construção civil do Estado passou de 829 para 2.228 – disparada de 168% em apenas cinco anos.

Os números da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), organizados pelo economista Áureo Torres, mostram redução na quantidade de trabalhadores na construção civil em 2006 e, nos anos seguintes, crescimentos ininterruptos. A melhoria do mercado atraiu homens e mulheres. Em 2006, havia 13.797 homens no segmento; em 2010, eles já eram 25.479. O aumento, de 86%, é expressivo, mas muito inferior ao avanço relativo da quantidade de mulheres nos canteiros de obras.

No período, a participação das mulheres na construção civil do Estado subiu de 5,7% para 8% e dos homens, caiu de 94,3% para 92%. A distância ainda é grande, mas cada ponto percentual, acrescido por elas e perdido por eles, indica mudança radical em uma área, cuja presença feminina era, há alguns anos, impensável.

Nem mesmo as trabalhadoras, já habituadas em seus trajes de construtoras, cogitavam, há alguns anos, a possibilidade de produzir casas. "Nunca imaginei", admite Divanete, que não esconde a realização profissional: "Adoro o meu trabalho".

A servente já completou um ano na construção civil e quer seguir por muito mais tempo no setor. "Quero me aperfeiçoar, aprender a parte elétrica", afirma. A construção civil está tão presente na vida de Divanete que sua filha não consegue dissociar a mãe da trabalhadora. "Minha filha só me desenha com capacete e colher de pedreiro", conta, sorrindo.

Com 39 colegas

Divanete é colega de outras 39 mulheres, que constroem 860 casas populares pré-moldadas no bairro Caiobá II, periferia de Campo Grande. A modalidade da construção (veja matéria nesta página) possibilita que as paredes sejam feitas na horizontal, em forma de painéis.

O êxito da tarefa de levantar organizar os painéis depende, em boa medida, da pedreira Maria Aparecida da Silva, 31 anos. Sob sua chefia, há uma equipe quatro homens. Maria estendeu a responsabilidade e a firmeza, necessárias na função, para sua vida pessoal e social. "Antes eu era muito quieta. Agora, tenho mais atitude, mudei o jeito de conduzir as coisas", afirma.

Mulheres sempre

A dedicação e a eficiência de mulheres como Maria e Divanete aumentam a certeza dos encarregados pela obra. "Elas são muito mais cuidadosas, fazem acabamento bem melhor. Além disso, são mais delicadas", avalia a psicóloga Evelyn Quadros do Carmo, coordenadora de Recursos Humanos da CGR Engenharia, empreiteira responsável pela obra.

A delicadeza, mencionada por Evelyn, sucumbe a aparente rudeza da construção civil. Após horas carregando carrinhos com tijolos, fazendo armação com ferros, rebocando paredes, elas tiram todo o pó e se arrumam antes da volta para casa. "Depois do trabalho, elas vão para o vestiário, tomam banho, trocam de roupas, passam batom, ficam bonitas; afinal, são mulheres", conta Evelyn.


Fonte: http://www.correiodoestado.com.br/

Av. Antônio Carlos Magalhães, 771 - 17º andar
Itaigara - Salvador, Bahia - Cep: 41825-000
Tel: 71.3505-0202 - Fax: 71.3505.0207